Mudança de Hábito

Ame o seu corpo, pois ele é o único que você tem.

Em tempos de polarização, onde o bom senso e o meio termo muitas vezes são atropelados por um imediatismo mágico, vemos aumentar as manchetes sensacionalistas.

O evento acontece desde a política e atinge todas as áreas possíveis da sociedade; a nutrição e a alimentação não poderiam ficar fora desta tendência.

Um estudo publicado em 2017 mostrou que o alto consumo de carboidratos está associado a um risco aumentado de mortalidade, por eventos cardiovasculares e outros. Em contraste, uma ingestão de gorduras maior foi associada a um risco diminuído de mortalidade, ao contrário do que se acreditava há décadas. Isso significa que indivíduos que têm uma alimentação baseada em carboidratos (pães, doces, massas, etc.) provavelmente se beneficiariam se fizessem uma redução destes carboidratos e obtivessem parte de sua energia de gorduras (manteiga, óleos, oleaginosas, etc.).

Este artigo é muito relevante, pois envolveu 18 países em 03 continentes diferentes. Nada menos do que 135.335 indivíduos foram analisados e acompanhados pelos pesquisadores por um período médio de mais de 07 anos.

Vocês devem imaginar que não é nada fácil fazer um estudo tão longo e com o rigor científico necessário, não é mesmo?

Mais de 50% de toda a população analisada consumia uma dieta rica em carboidratos (pelo menos 60%), sendo que um quarto dessa população alcançava 70% de ingestão!

Uma das explicações para os resultados talvez possa ser a FONTE destes carboidratos: Em países de baixa e média renda, onde as ocorrências de morte e eventos cardiovasculares foram ainda mais evidentes, a alimentação é baseada em carboidratos REFINADOS (como arroz, pão branco, biscoitos e outros industrializados) e não alimentos integrais que são ricos em vitaminas e fibras ou frutas, legumes e hortaliças (que, sim, são fontes de carboidratos).

Bem, é neste ponto que voltamos ao início do nosso texto aqui hoje. Mal o artigo foi publicado já haviam inúmeras postagens de muitos especialistas da área médica alertando para o “Perigo dos carboidratos”, para a “Necessidade de dietas Low-carb”, para os “Benefícios de uma dieta rica em proteína”.

A questão é que alguns ignoraram uma das conclusões que estão lá, no estudo original:

“A ausência de associação entre uma ingestão de carboidratos menor que 50% e ligações com eventos de saúde não suporta a recomendação para dietas de baixo teor de carboidratos. Parece que o consumo moderado de carboidratos – 50-55% – é necessário para atendimento das demandas energéticas do dia-a-dia”.

Meio sem graça essa conclusão não? Pelo menos para aqueles de nós que procuram por uma resposta imediata, mágica e definitiva.

Quer dizer que as recomendações para ingestão de carboidrato continuam mais ou menos como dizem os guias nutricionais…. e o nosso bom senso nos faz crer que deveremos seguir aquilo que os nossos avós já recomendavam:

“Coma comida de verdade, meu filho, que isso aí vai te deixar doente”.

(Aqui uma avozinha fala ao neto que abre um pacote de salgadinho ou qualquer coisa que ela não reconhece como alimento)

É pessoal, parece que não é desta vez que encontramos o vilão. O carboidrato não é o monstro do lago Ness, aquele que queremos flagrar e condenar como responsável pela nossa gordura indesejada na região da cintura… A conclusão é simples e fácil de entender: eliminar ou reduzir drasticamente o carboidrato não garantirá seu emagrecimento e a conquista daquela barriga lisinha das capas das revistas.

Como nutricionista e estudiosa da boa alimentação, compartilho com vocês as minhas impressões baseadas em minha experiência em relação à perda de peso e dietas:

1- O melhor caminho – o que vai te conduzir à prevenção de doenças e a um envelhecimento mais saudável – é a reeducação alimentar, ou seja, é o processo no qual você vai estudar de verdade (fontes sérias) para aprender a fazer escolhas alimentares corretas. Aqui é necessário perguntar-se e responder sinceramente:

– Por que quero emagrecer? Por que isso é importante para mim?

Essa resposta deverá ser guardada num local seu e deverá ser relida sempre que surgirem dúvidas.

Responsabilidade: Você.

Apoio: Um nutricionista pode te ajudar.

2- Às vezes, e não raramente, há a compensação, com alimento, de emoções escondidas e negadas. Neste caso você deverá resolver isso para poder ter sucesso no caminho 1, acima. Resolvendo essas questões psicológicas e descobrindo de onde está vindo a sua compulsão, que te impede de conquistar a saúde que deseja, você será livre para comer tudo o que te faz bem, com moderação. Neste ponto você já terá descoberto que o segredo é não seguir padrões impostos, e sim encontrar um estilo próprio de alimentação.

Responsabilidade: Você.

Apoio: Um psicólogo pode te ajudar.

3 – Esse caminho te levará ao autoconhecimento e, por mais estranho que possa parecer, outros setores da sua vida (como profissional e amoroso, por exemplo) se beneficiarão disso. Você terá que ter disciplina, dispender energia para mudar seus hábitos, otimizando seu tempo para adequar novas resoluções que surjam no processo (você pode concluir que cozinhar, por exemplo, é parte do seu caminho. Neste caso terá que disciplinar-se para fazê-lo).

Traçar objetivos e acompanhar suas evoluções são essenciais para sentir-se motivado em continuar!

Responsabilidade: Você.

Apoio: Um coach ou até um familiar/conhecido pode te ajudar.

4 – Você já deve saber, mas não deixarei de comentar, sobre a barriga lisinha da capa de revista, que muitas vezes inspira homens e mulheres a iniciarem dietas “Milagrosas”:

– Tem bastante Photoshop envolvido ali.

– Há determinações genéticas para tipos de corpos. Cuidado ao inspirar-se em tipos longilíneos que podem ter ancestrais na Suécia ou Polônia. Pode ser que você não tenha o código genético necessário para assemelhar-se ao padrão escolhido. Neste caso, a frustração virá.

– Muitas vezes pessoas que trabalham com imagem são submetidas à pressão quase desumana para manterem-se nas capas das revistas. Não podemos aferir saúde apenas olhando uma foto.

Ame seu corpo. Ele é o único que você tem, a vida é curta e não vale a pena desperdiça-la brigando com você mesmo e com sua alimentação.

Responsabilidade: Você

A rede de apoio citada nos itens 1 a 3 poderão te ajudar.

Beijo e até a próxima,

Thais Tezza

 

REFERÊNCIA

DEHGHAN, Mahshid et alii. Associations of fats and carbohydrate intake with cardiovascular disease and mortality in 18 countries from five continents (PURE): a prospective cohort study. Disponível em: <http://www.thelancet.com/pdfs/journals/lancet/PIIS0140-6736(17)32252-3.pdf> Acesso em: 29 ago 2017.

 

Thais Tezza – Nutricionista, Biomédica, Mestre em Microbiologia pela USP e Chef Profissional pela Natural Gourmet Institute, em Nova York, EUA,Thais é especialista em reeducação alimentar e alimentação preventiva de doenças crônicas não transmissíveis como a diabetes, obesidade, câncer e doenças cardiovasculares. Sua principal linha de trabalho está na elaboração de planos alimentares para pacientes que possuem algum grau de intolerância ou sensibilidade a ingredientes como glúten ou lactose, por exemplo, incluindo os celíacos. O trabalho com gestantes, nutrizes e recém-nascidos, misturando aconselhamento e acompanhamento nutricional com oficinas culinárias, é uma outra especialidade de Thais Tezza, que acredita que o caminho para uma excelente saúde pode ser alcançado mais facilmente se for trabalhado desde muito cedo.

Site: www.thaistezza.com

Email: contato@thaistezza.com

Instagram: @chefthaistezzae @asaudeestaservida

Facebook: www.facebook.com/asaudeestaservida

 

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